It’s Getting Better All The Time: The Beatles Remasters

•setembro 11, 2009 • 11 Comentários

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Quatro anos de trabalho meticuloso, de ourives, de lapidação do som dos discos da banda mais importante da história do rock não podiam – mesmo – ter sido em vão. Hoje, ouvi “Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band” remasterizado e posso dizer que foi uma experiência (aca)chapante.

Desde a abertura do celofane do disco até o último minuto de A Day In The Life, toda a experiência é emocionante. Eu nunca tinha comprado um disco dos Beatles na vida (os que eu sempre ouvi já estavam aí quando eu me dei conta de ser gente), e chegar na loja e ver toda a discografia na prateleira de lançamentos é uma sensação, no mínimo, deliciosa.

Do “Please Please Me” ao “Let It Be”, todos estão lá, fechados no plastiquinho, saídos do forno, exibindo-se em meio aos outros CDs novos que de repente ficaram ofuscados no resto da loja. Todos com o selinho estampado “Remasterizado pela primeira vez”, numa mensagem que – mercadologia a parte – mostra o orgulho dos próprios responsáveis por esse projeto de ver seus produtos finalmente nas ruas.

E colocar um trabalho desse nas ruas significa mexer com a cabeça de milhões de fãs ao redor do planeta, significa tocar o que então era intocável, significa mexer numa obra sagrada e defendida a unhas e dentes por puristas de todos os gêneros, significa revirar o baú da história moderna num movimento arriscado de modernizar – e descaracterizar – o atemporal.

Mas os caras não são bobos. E fizeram um trabalho excepcional, de respeito. Respeito ao consumidor e – principalmente – à própria obra em que estavam remexendo.
Diferente do que muitas vezes acontece com outros álbuns que ganham remasterização, os discos dos Beatles não foram “comprimidos” ou simplesmente “aumentados de volume” artificialmente. Não. O que aconteceu aqui foi uma verdadeira restauração  – como acontece em obras de arte – para que se recuperasse a total fidelidade do que havia sido gravado originalmente.

Ou seja: agora, quando você escuta um backing vocal, você realmente escuta um backing vocal, com 2, 3 ou 4 vozes nitidamente distintas uma da outra, cristalina, pura, como se os Beatles estivessem no meio da sua sala. Não se ouve mais um “bolo” de vozes. Se você quiser, você consegue distinguir entre a voz do George  a do Lennon. Não é preciso mais fazer esforço para ouvir o baixo do Paul. Agora, ele invade a sala, gordo e pulsante, cheio de vida. A bateria do Ringo foi redescoberta: os pratos rasgam a caixa acústica e os tambores ecoam como se tivessem sido gravados hoje.

O play no Sgt Peppers faz sua sala ser invadida com o burburinho das vozes, e poucos segundos depois a guitarra solo entra atacando tudo,  na sua cara, estampado no alto-falante. Parece que tiraram um pano da frente das suas caixas.  Em “She’s Leaving Home”, o grave dos cellos faz seu cérebro tremer, ao mesmo tempo em que detalhes previamente escondidos da harpa transbordam para o seu ouvido, temperando a canção com um sabor que eu – pelo menos – nunca tinha provado. “A Day In The Life” está um furacão, com seus metais e bilhões de efeitos sonoros.

Tudo está muito bonito. O som está alucinante, mais puro impossível, mais presente impossível – tenha em mente que são gravações de 40 anos atrás! – mais fiel impossível.  Onde é pra ter peso tem peso. Onde é pra ter silêncio tem silêncio. Adeus chiados, instrumentos embolados e vozes encobertas. Adeus ao que você conhecia. Prepare-se para redescobrir os discos dos Beatles.

Nem vou me dar ao trabalho de falar das musicas, pois essas você conhece do avesso, de trás para a frente, de ouvidos fechados.  E elas são a razão de todo esse engajamento. Foram 4 anos de minúcia em um estúdio para revitalizar e garantir que as musicas que o mundo ouve há mais de 40 anos permaneçam por mais 40. E mais 40. E mais 40.

E, a partir de agora, com um som tão glorioso quanto seu legado.

Michael Jackson (1958-2009)

•junho 28, 2009 • 2 Comentários

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“…Why? Why?

Tell them that it’s human nature… “

Once Soundtrack – Glen Hansard & Marketa Irglova (2007)

•junho 2, 2009 • 4 Comentários

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Você é apaixonado por música?

 

Então você vai adorar a trilha sonora do Once (Apenas Uma Vez),  um filme que conta a pequena saga de um músico de rua irlandês na busca de realizar o sonho de virar profissional.

 

Peguei o DVD emprestado – obrigado, Pat – e agora não consigo tirar o filme da cabeça. Ele é absolutamente delicioso e tem um humor sutil e delicado nos moldes de Alta Fidelidade. Aliás, há semelhanças interessantes e subjetivas entre os dois. Não no roteiro e muito menos na trama, mas no espírito que os protagonistas de ambos os filmes compartilham pelo amor à música.

 

E é esse o espírito que derruba você quando as músicas começam a tocar.  Glen Hansard e Marketa Irglova (os personagens principais do filme E autores de todas as canções) são donos de duas almas sonhadoras e calejadas,  e interpretam com tanto sentimento e sinceridade que fica impossível não se envolver na história deles.

 

Dá gosto de ver o filme. Uma das primeiras cenas mostra Glen Hansard numa loja de instrumentos musicais “apresentando” uma de suas canções para sua nova amiga, numa cena tão singela e tão bonita que, de repente, o que se vê não são mais dois atores. São dois músicos tomados pelo sonho e pela paixão,  iniciando uma parceria emocionante.

 

Veja o filme e ouça as músicas. Quando chegar em “Lies”, “Falling Slowly” e “When Your Mind’s Made Up” você vai entender. E vai querer ouvir de novo.

 

É mágico.

A Camp – Colonia (2009)

•maio 19, 2009 • 2 Comentários

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Se você gostava dos Cardigans, provavelmente vai ter uma surpresa tão boa quanto a que eu tive quando ouvi esse novo disco do “A CAMP”, o projeto “paralelo” de Nina Persson, a vocalista e carinha bonita da famosa banda pop-chiclete Sueca.

Mal sabia eu que eles já tinham lançado este Colonia – segundo disco após um hiato de 7 anos entre o lançamento do álbum de estréia – e que estavam mais oficiais do que nunca: na estrada, se preparando para o braço norte-americano da turnê de lançamento do segundo filho.

“The Crowning” e “Stronger Than Jesus” abrem o disco com uma atmosfera melancólica, mas bem menos dark do que o “último” disco dos Cardigans – o excelente Super Extra Gravity – sugeria. Acho que os espíritos de Nina Persson finalmente voltaram a ficar em paz depois dos turbulentos anos finais da sua primeira banda. Agora, parece que ela está de bem com a vida novamente e expira um frescor que relembra o bom humor e a irreverência de “Life” ou  “First Band On The Moon”.

O bom é que esse resgate veio somado a uma maturidade que ela não tinha naquela época. E “A CAMP” é uma banda cheia de surpresas musicais gratificantes. Os arranjos são caprichadíssimos e, por vezes, de um bom gosto que traz arrepios à espinha – como em The Crowning e Chinatown – e Nina está cantando com o fôlego dos velhos tempos. E, quando não empolga o suficiente, pelo menos nunca perde o charme.

Talvez as únicas “falhas” do disco sejam alguns temas mal-explorados ou de interesse duvidoso: as lamúrias e os pontos-de-vista pessimistas de Nina sobre o mundo em que vivemos ou, mais especificamente, sobre a América, numa espécie de protesto que já soa tão clichê quanto o próprio ato de protestar.

Mas tudo bem. A gente releva, porque o prazer de ouvir um disco novo e se relembrar dos bons e divertidos tempos do Cardigans compensa a oscilante verborragia. E, mais importante do que isso, faz a gente sentir um gosto renovado de apreciar música feita com o capricho de um artesão e a empolgação de um adolescente.

É pop do bom.

Titãs – “Cabeça Dinossauro” (1986)

•janeiro 22, 2009 • 4 Comentários

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O “Cabeça Dinossauro” sempre é um dos discos que aparecem nas famigeradas listas de “álbuns mais representativos” do rock nacional.  Hoje, depois de ouvi-lo após muito, muito tempo, eu comecei a relembrar das razões de sua importância. E acho que entendo o porquê.

Pra começar, ele foi feito em 1986. Um ano em que o Brasil ainda não sabia ser totalmente democrático (não que saiba hoje). A ditadura militar encerrara-se – teoricamente – um ano antes, mas a liberdade de expressão brasileira ainda sofria com muita repressão, muita censura e muito conservadorismo.

E os Titãs – então banda relativamente nova e contraventora – tiveram a pachorra de botar no mercado um disco que criticava (e, mais importante, questionava) todos, absolutamente todos valores da nossa sociedade. A Igreja, a Política, a Polícia, a Violência, a Família, o Capitalismo e tantos outros temas.

“AA UU”, “Policia”, “Bichos Escrotos”, “Porrada”, “To Cansado” e “Homem Primata” são apenas algumas que traziam à tona toda essa reflexão. Você se via “louco de tanto pensar”, comendo e dormindo, almoçando, jantando e vivendo junto com sua família todo dia, cansado de tudo e sem fazer nada (Porrada!).  E essas músicas faziam todo mundo se olhar no espelho e se sentir levemente responsável pelo estado em que o país se encontrava.

Ao mesmo tempo, as musicas também faziam você se sentir parte de uma massa que pensava, que criticava, que questionava o até então inquestionável, que parava pra refletir e que queria, de fato, mudar. O disco fazia a gente enxergar o nosso pior. E nos provocava a buscar o nosso melhor.

Fora o contexto político e poético, “Cabeça Dinossauro” representava uma inovação inédita em termos de produção. Desde os tempos de Mutantes não se via um disco de rock brasileiro soar tão gringo, tão profissional, e tão moderno. Aqui, os sons vinham em densas camadas, em timbres volumosos, em apurada técnica instrumental (obrigado, Charles Gavin).

Para entender isso, basta pegar os discos da Legião Urbana, do Paralamas, do Ultraje a Rigor e do Barão Vermelho da mesma época. Nenhum deles tinha a mesma impecabilidade na produção. Todos ainda tinham uma crueza muito rudimentar em sua sonoridade. O “Cabeça Dinossauro”, não.  Desde os coros vocais até os overdubs de bateria, tudo ali soa como se tivesse sido meticulosamente calculado para não parecer datado depois de duas décadas.

Acho que eles conseguiram.
Hoje, 23 anos depois, “Cabeça Dinossauro” ainda é uma das maiores provas de que o rock brasileiro existiu, e de que os Titãs já tiveram uma época gloriosa de hegemonia e criatividade no cenário musical deste país.

Este post vai pro meu grande amigo Thiago Reimão, que ontem me proporcionou uma sessão inesperada dessa grande banda, e – sem saber – me presenteou com a nostalgia deliciosa de reviver momentos mágicos da minha própria vida, mentalmente.

Valeu, cara. Até o próximo domingo.

The Killers – “Day & Age” (2008)

•dezembro 8, 2008 • 4 Comentários

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É… os caras do The Killers não vieram para brincar, não.

Em seu terceiro disco de músicas inéditas, eles provam que sabem se superar e entregam um material tão bom, mas tão bom que fica difícil não se viciar. Assim como a maioria das bandas nesse ano, o Killers também pegou o bonde para os anos 80 e trouxe de lá um monte de teclados e efeitos datados para suas novas composições, mas soube usá-los com esperteza e não caiu na armadilha do exagero. (Ouviu, Keane??)

O primeiro single – Human – já mostra essa atmosfera nova na qual a banda se encontra. Para trás ficaram as guitarras distorcidas, as sujeiras, os berros prolongados. Ouvindo “Human” pela primeira vez, a impressão que se tem é a de estar ouvindo a versão “dance” de uma música que você ainda não conhece.

E, se por um lado isso soa um pouco assustador, por outro lado também soa gratificante. A música é lindíssima, e sua melodia tem uma simplicidade tão rara e eficiente que o refrão vai ficar na sua cabeça depois de meia audição.

Ouvindo pela primeira vez, senti uma certa falta daqueles ataques de guitarras que são a marca registrada do Killers, mas depois eu entendi que eles não teriam o menor sentido aqui. E, assim, violões impecáveis dão o tom da viagem em “Joy Ride” e em “I Can´t Stay” – já uma das melhores músicas da história da banda. Linda, linda, linda.
Losing Touch abre o disco de maneira elegante e contida, e a épica “A Dustland Fairytale” tem tudo para virar um hino da banda nos shows. Outras pérolas são “Spaceman” – com sua pegada ultrapop –  e “The World We Live In”.

Dois anos depois do espetacular Sam´s Town, o Killers se reinventa e volta à cena com um som maduro, contemporâneo e totalmente à prova de rótulos.

É uma banda de respeito.

Fiona Apple – “Tidal” (1996)

•dezembro 2, 2008 • 8 Comentários

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Em 1996, Fiona Apple tinha 19 anos de idade. E 50 de maturidade.

Num ano em que suas concorrentes Alanis Morissette, Joan Osbourne e Jewel faziam seus protestos juvenis e conquistavam os adolescentes do planeta com suas revoltas e lamúrias pró-“queremos ser encaradas como adultas”, Fiona ia pelo sentido contrário, afirmando que de vida adulta ela já entendia e muito.

E, mais até do que seu discurso, adulto mesmo era o seu som. Fiona produziu um disco de estréia onde ela simplesmente compunha tudo com base em seu piano melancólico – por vezes jazzístico e erudito – em sua voz grossa, sofrida e incrivelmente afinada, em seu bom gosto de arranjadora e, principalmente, em sua experiência de vida.

“Tidal” nada mais é do que experiência de vida transformada em excelente poesia. Os recados que transbordavam em “Criminal” – single que lhe rendeu um Grammy em 1996 – em “Shadowboxer” e em “Never Is a Promise” eram muito claros, e se materializavam na forma de versos praticamente irretocáveis. Com um poder de síntese e um talento quase Buarquiano para compor versos, Fiona estapeava – mesmo sem querer – qualquer outra que tentasse se vender como menina-problema mais do que ela.

Não que para fazer boa música você precise ser uma pessoa-problema. Mas já que você vai usar suas angústias e sua história de vida como matéria-prima de sua arte, é bom que você saiba realmente como fazer isso. E a Fiona sabe.

Depois do espetacular Tidal, ela fez mais dois discos impecáveis, em 1999 e em 2005, provando que seu talento promissor não era só uma sorte de principiante. Atualmente, está fora dos holofotes e longe da mídia. Os fãs nem sequer sabem se ela está viva ou não, se está em Cancun passando seus dias em iates e fazendo cruzeiros, se está se entregando a novas frustrações para escrever mais uma obra-prima.

Ela podia pelo menos aparecer de vez em quando para aliviar a ansiedade de quem há muitos anos não ouve sequer uma nota nova vinda de seu piano.

Fiona, cadê você?