Keane – “Perfect Symmetry”

•Outubro 13, 2008 • 10 Comentários

Parece que o Keane entrou num DeLorean e escolheu viajar para o ano de 1986. O novo e terceiro álbum da banda britânica, “Perfect Symmetry”, está encharcado de teclados e efeitos retrô. E, diferente do que acontecia em Hopes And Fears e Under The Iron Sea, agora as baladas grandiosas – marca registrada da banda – deram lugar a um clima mais dançante, numa sonoridade que nos remete aos dias de glória do Duran Duran. Elas ainda estão lá, mas em menor quantidade. Parece que o trio cansou de choramingar e está tentando descobrir como é que se faz para se divertir.

Assim, o álbum começa com a chacoalhante “Spiralling”, uma explosiva amostra do que vem pela frente durante os próximos 50 minutos: vocais agudos, batidas mais rápidas, percussões eletrônicas, sintetizadores e até um empolgado “Whooo!” no começo. Tão empolgado que às vezes soa meio artificial, vindo de quem vem. Se você achava que “Is It Any Wonder” era o máximo de alto astral que o Keane conseguia atingir, prepare-se.

E tanta energia continua a todo vapor em “Again & Again” e “Better Than This”, duas faixas que você – se for um fã purista como eu – vai torcer o nariz quando ouvir pela primeira vez. Eventualmente a gente se depara com uma ou outra balada no meio do caminho e se lembra que ainda está ouvindo um disco do Keane, afinal. Caso das excelentes “Love is The End”, “You Don´t See Me”, e  “Lovers Are Losing”, onde Tom Chaplin mostra que ainda não perdeu seu dom mágico de engrandecer as melodias com sua voz poderosa. É o novo Keane com o velho vigor.

Estão entre as melhores músicas do disco e até da banda. São daquelas que te surpreendem logo de cara e que com certeza você vai berrar junto depois de ouvir o disco poucas vezes. E assim funciona o álbum quase inteiro, e a empolgação deles acaba contagiando a sua. A única que foge à regra é “Pretend That You´re Alone”, uma música que ficou num meio termo ingrato entre as facetas nova e velha do Keane, e acabou ficando fraquinha.

Mas até aí, ninguém é perfeito.

Elbow – “The Seldom Seen Kid” (2008)

•Setembro 30, 2008 • 3 Comentários

Descobri essa banda há pouquíssimo tempo e já fui definitivamente conquistado por ela. O Elbow, totalmente novo pra mim, na verdade é um grupo que já existe há 11 anos. Foi formado em Manchester, na Inglaterra, e este “The Seldom Seen Kid” é seu quarto álbum.

O legal desse disco é que ele transforma elementos que são aparentemente pesados e densos – tapetes sonoros de mil teclados, coros e cordas – em adornos muito bem-vindos e bem ultizados em volta das melodias extremamente bem feitas. E, assim, a música do Elbow não pesa em nada, e traz de volta uma emoção que as novas bandas britânicas vinham abandonando em prol de guitarras rapidinhas e vocais insossos.

É um som que dá gosto de ouvir. A banda faz um equilíbrio interessante entre elementos estranhos à la Radiohead e melodias pegajosas e de facílimo acesso. Ou seja, algo que às vezes parece complexo ou indigesto acaba se transformando num refrão que gruda na cabeça ou num apogeu inesperado nos segundos finais.

Minha predileta até agora é “Mirrorball”, uma amostra lindíssima das principais características da banda: instrumental caprichado e impecavelmente executado, refrão grandioso e vocais imprevisíveis. Outras pérolas são “The Bones Of You”, “Weather to Fly” e “Some Riot”. Todas interessantes, todas positivamente surpreendentes. Vale a pena conhecer.

Elbow. Taí uma boa surpresa deste ano.

Marcelo Camelo – “Sou” (2008)

•Setembro 22, 2008 • 5 Comentários

 

Pretensioso.

É assim que vai lhe soar o primeiro disco solo do hermano Marcelo Camelo à primeira audição. Desde o trocadilho visual da capa até a última nota da última música, transborda em “Sou” um excesso de autoconfiança que talvez não seja muito saudável para um artista em seu disco debutante. 

Totalmente mergulhado no experimentalismo que já dava sinais de vida no último disco dos Los Hermanos, Camelo resolveu abandonar de vez sua faceta roqueira e embarcou definitivamente na calmaria e na complexidade da MPB. E, assim, fez uma dezena de músicas cheias de meandros e acordes complicados para impressionar os ouvidos mais atentos. 

E, na pretensão de querer inovar demais, produziu uma obra difícil de engolir. 

Mas calma. “Sou” não é um disco ruim. 
Muito pelo contrário: depois que a estranheza causada pela pretensão vai embora, as músicas finalmente se revelam bastante agradáveis (e se você é um dos que também demoraram para assimilar o 4, você vai entender o que eu digo). 

Tanto que o disco já tem até um single: a genial “Doce Solidão”, que de cara gruda no seu ouvido com um assobio pegajoso, que vai martelar sua cabeça o dia todo. 
Depois dela, a próxima pérola deliciosa é “Copacabana”, uma quase marchinha de Carnaval com um gostinho de anos 30 que também vai ficar na sua cabeça por muito tempo.

“Liberdade”, “Janta” e “Mais Tarde” também são daquelas que melhoram muito cada vez que se ouve. “Passeando” é um exercício complicado, tanto para o violão quanto para o nosso ouvido, e seria genial se estivesse no terceiro disco solo do Camelo. Mas aqui, ela só serve para mostrar que o nosso querido hermano chegou numa lição mais difícil da cartiha da escola de música. 

Contudo, “Sou” é um disco de estréia que revela o que todos já sabiam: apesar dos momentos de estrelismo, Marcelo Camelo é um ótimo compositor. Ele só precisa aprender a se levar um pouco menos a sério.

Pink Floyd – “Wish You Were Here” (1975)

•Setembro 15, 2008 • 3 Comentários

Hoje, o rock silenciou.

Faleceu o tecladista e co-fundador do Pink Floyd, Rick Wright. Ele tinha 65 anos e há algum tempo vinha lutando contra um câncer. A notícia de sua morte foi divulgada hoje por um porta voz da banda.

Rick Wright era um daqueles caras que geralmente as pessoas não se lembram muito por não ser um roqueiro exibido. Ele era tímido nos palcos, era tímido nas entrevstas, era tímido no show business, mas era um dos cérebros mais ativos da banda.

Ele é o responsável por The Great Gig in the Sky, por Nobody Home, pelo clima soturno e esperançoso de Shine On You Crazy Diamond e por tantos e tantos outros hinos do Floyd que crescemos ouvindo e aprendemos a amar.

Hoje eu poderia gastar parágrafos infinitos comentando sobre cada minuto do disco Wish You Were Here. Ainda hei de faze-lo. Mas agora eu deixo este espaço reservado para homenagear Rick Wright. Um grande músico, um grande contribuinte do rock. Uma grande perda.

E em 15 de setembro de 2008, “Wish You Were Here” é a mensagem que, 33 anos depois de dita pela primeira vez, abriga em seu conforto mais um membro da família Pink Floyd.

Rick, descanse em paz.

The Verve – Forth (2008)

•Setembro 3, 2008 • 2 Comentários

Onze anos depois do antológico “Urban Hymns,”, o Verve ressurge para uma volta triunfal e mexe com a cabeça de milhares de fãs ao redor do mundo. “Forth” é o tão esperado novo disco da banda que conquistou a galáxia com sua “Bittersweet Symphony” de 97 e depois sumiu do mapa.

Eu, particularmente, nem sou tão fã do Verve assim, mas gostei do disco novo (a começar pela capa lindíssima!). Talvez até por não ter criado a expectativa que um fã de longa data certamente criou. Posso imaginar o que os fãs ardorosos da banda devem estar sentindo neste momento – afinal, nada como o lançamento de um album novo de uma banda que a gente adora – e até por isso já criei uma simpatia pelo “Forth”. A euforia na Vervelândia deve estar incontrolável.

“Sit and Wonder” e “Rather Be” são as que mais me agradam até agora, e o single “Love is Noise” soa 80´s demais à primeira impressão, mas depois melhora bastante. A maioria dos anrranjos está mesmo com “a cara” do Verve, e isso já deve servir para aliviar a ansidade do pessoal que ficou esperando por este Forth durante últimos dez anos.

Por outro lado -  não sei se é impressão minha ou não -  o novo Verve está muito mais para um novo álbum solo do Richard Ashcroft do que um esforço conjunto de uma banda que já esteve no topo da parada britânica. O que é bom, não me entenda mal. Eu gosto dos discos solo dele. (Algum fã do Verve por aí pra me ajudar com essa dúvida?)

De qualquer modo, Forth é um belo retorno.

Quarteto Novo (1967)

•Setembro 2, 2008 • 3 Comentários

Sabe o Hermeto Paschoal? Aquele velhinho doidão que tira som até da própria barba??

Ele ficou conhecido por causa deste disco.

O então Quarteto Novo – que lançou esse único álbum em 1967 – tinha Hermeto na sua formação, tocando piano e flauta e arranhando uma das suas primeiras e mais conhecidas composições. “O Ôvo” (naquela época ainda tinha o circunflexo) abria o disco e esparramava uma melodia extremametne cativante.

Todas as músicas do Quarteto tinham uma proposta inovadora, com elementos nordestinos misturados com harmonias de jazz e de bossa nova. Tudo bem que, naquela época, era meio “lugar comum” ser influenciado por jazz e bossa nova – pelo menos no que diz respeito à música brasileira – mas mesmo assim é interessantíssima a mistura que o Quarteto fazia. (Tão interessante que, depois da gravação desse disco, o próprio Hermeto foi convidado para ir aos EUA participar de uma gravação com um tal de Miles Davis)

Existe uma riqueza muito peculiar em todas as músicas. É legal ver que o experimentalismo tinha um lugar nas prateleiras. Músicas como “Algodão”, “Misturada” e “Canto Geral” faziam uma salada de instrumentos aparentemente desconexos ter um sabor bastante novo.

E hoje, ouvindo a edição remasterizada em CD com um áudio cristalino, fica ainda mais evidente a riqueza das composições e das execuções. Você escuta cada palhetada de violão, cada sopro de flauta (num estilo que Ian Anderson nenhum botaria defeito), cada chacoalhada da percussão e cada mergulho do piano com total independência. Nada embola, nada sai do tempo, nada compromete. Tudo se completa. É tão virtuoso que você diria que é gringo antes de ver a capa.

É música instrumental interessantíssima, brasileiríssima, competentíssima e deliciosa de ouvir. Uma pena que às vezes tenhamos que voltar 40 anos no tempo para sentir um prazer tão grande de escutar nossa própria música. Onde estarão os quartetos novos de hoje?

Pearl Jam – Versus (1993)

•Agosto 29, 2008 • 2 Comentários

Dois anos depois de puxar para sua cidade natal os holofotes do mundo – junto com Nirvana, Soundgarden e tantas outras – o Pearl Jam enfrentava o “desafio do segundo disco” com um fardo pra lá de pesado: antes de sequer ser concluído em estúdio, o álbum já tinha uma pré-venda encomendada de mais de 3 milhões de unidades.

“Versus” tinha que chegar amansando a ansiedade de milhares de pessoas que tinham se convertido ao Pearl Jam depois do emblemático e insuperável Ten, de 1991. E, quando aquela lhama esquisita chegou nas lojas do mundo inteiro em novembro de 1993, todo mundo finalmente sentiu o alívio que queria: “Versus” era um grande álbum, e cumpria com maestria a cruel jornada pela qual todo segundo disco é submetido.

Um pequeno aperitivo havia sido servido alguns meses antes, no MTV Video Music Awards daquele ano, onde o Pearl Jam apresentou “Animal” ao mundo. E ela, dentro do contexto do álbum, ficava ainda mais poderosa. Aliás, o novo Pearl Jam inaugurava sua nova obra – seu atestado de independência e de afirmação – com dois petardos explosivos, para mostrar que ninguém estava ali para brincadeira.

E se “Go” e “Animal” pareciam sinalizar uma estrada ligeiramente mais suja para o Pearl Jam, “Daughter”, a linda “Dissident” e “Elderly Womam Behind…” mostravam que a sutileza melódica dos tempos de Black e Release permanecia intacta, para não dizer mais refinada.

“Elderly Woman”, em particular, é uma daquelas músicas que ficam cada vez mais bonitas toda vez que se ouve. Emocionante até, como não me deixam mentir os 40 mil fãs que, com as mãos apontadas para o céu, berraram junto esta incrível melodia no Pacaembu, naquele 4 de dezembro de 2005.

“Rats”, “Rearviermirror” e “Drop The Leash” mantinham a veia poderosa do disco, e “Indifference” chegava para institucionalizar a sensacional tradição do Pearl Jam de encerrar seus álbuns com músicas incontemporaneamente fortes.

Já faz 15 anos, mas parece que foi ontem. Na minha cabeça, o Pearl Jam está sempre no auge.

The Beatles – White Album (1968)

•Agosto 20, 2008 • 3 Comentários

O Álbum Branco foi o primeiro disco que os Beatles fizeram após a morte de seu lendário empresário Brian Epstein. Talvez por isso o disco seja uma vitrine de emoções à flor da pele, de momentos oscilantes entre muita revolta, muita ternura, muita calmaria e muita descontração. Talvez por isso, também, a banda tenha se permitido explorar rumos ainda inalcançados (mesmo depois de Sgt Peppers!!) e extravazar as explosões criativas sem censuras.

E, talvez por isso ainda, o Álbum Branco seja um dos discos mais versáteis, revolucionários e aclamados de todos os tempos.

Aqui, vemos cada um dos integrantes dos Beatles fechado em seu próprio mundo. Explorando seus próprios limites individuais e indo mais fundo dentro de suas próprias viagens. Pela primeira vez na história dos Beatles, ficava clara, absolutamente clara e nítida a autoria de cada canção. E, como sugere a capa do disco, totalmente branca e livre de interferencias, pela primeria vez os 4 se apresentavam nus e crus, sem disfarces e absolutamente autênticos e individuais.

Aqui a gente consegue saber exatamente qual música é do John e qual é do Paul, mesmo quando os dois resolvem expandir a abrangência de seus próprios estilos. Blackbird, dona de uma sutileza melódica inigualável e de uma beleza lacrimejante, convive com Helter Skelter, que esbanja toda a raiva incontida de Paul. John, por sua vez, esculpiu a belíssima Dear Prudence (em homagem à irmã de Mia Farrow) ao mesmo tempo em que satirizava o mundo com Yer Blues e com a charlestoniana Cry Baby Cry. George fez um dos maiores hinos do rock – While My Guitar Gently Weeps – e até o Ringo se empolgou e escreveu sua divertida “Don´t Pass Me By”.

Até hoje, já vendeu 20 milhões de cópias e é o segundo disco duplo mais vendido da história (perdendo apenas para o The Wall, do Pink Floyd). É um disco tão versátil que já foi considerado pela revista Rolling Stone como “um dos maiores acontecimentos da história da música popular”.

“The White Album” – como ficou gentilmente conhecido – é uma avalanche de hits universais dos Beatles. É um momento importantíssimo de transição de uma banda que passava por dias  tortuosos enquanto ainda dominava o planeta.

E hoje, 40 anos depois de seu lançamento, continua dominando.

Chico Buarque – Vida (1980)

•Agosto 19, 2008 • 6 Comentários

É engraçado como músicas que você escuta desde que nasceu ganham um novo sentido em determinada fase da “Vida”. Ou será que é a vida que ganha um novo sentido em determinada fase da música?

No meu caso, vida e música sempre fizeram sentido. E mesmo quando o momento que a gente vive parece não ter o menor sentido, sempre existe uma música pra ele. Mesmo que seja necessário se afastar dela para que tudo volte a fazer sentido.

E, tirando o pó do bom e velho “Vida” da prateleira, eu tirei o pó – também – das velhas interpretações. E redescobri que é melhor sofrer em dó menor do que sofrer calado, cantar uma alegria e cantar mais, chorar até ficar de mal de você mesmo, rolar no leito engolindo água e constatar que tudo já passou.

De todas as maneiras que há de amar, Chico fazia há quase 30 anos os versos que todo mundo gostaria de já ter feito um dia. E é muito bom ter o respaldo de um gênio como ele pra poder cantar a plenos pulmões a pressa do nosso coração desandando a bater desvairado.

“Sei que além das cortinas são palcos azuis com palcos atrás… Arranca a vida, estufa a veia. E pulsa, pulsa, pulsa, pulsa, pulsa mais.”

Voltei.