Titãs – “Cabeça Dinossauro” (1986)

O “Cabeça Dinossauro” sempre é um dos discos que aparecem nas famigeradas listas de “álbuns mais representativos” do rock nacional. Hoje, depois de ouvi-lo após muito, muito tempo, eu comecei a relembrar das razões de sua importância. E acho que entendo o porquê.
Pra começar, ele foi feito em 1986. Um ano em que o Brasil ainda não sabia ser totalmente democrático (não que saiba hoje). A ditadura militar encerrara-se – teoricamente – um ano antes, mas a liberdade de expressão brasileira ainda sofria com muita repressão, muita censura e muito conservadorismo.
E os Titãs – então banda relativamente nova e contraventora – tiveram a pachorra de botar no mercado um disco que criticava (e, mais importante, questionava) todos, absolutamente todos valores da nossa sociedade. A Igreja, a Política, a Polícia, a Violência, a Família, o Capitalismo e tantos outros temas.
“AA UU”, “Policia”, “Bichos Escrotos”, “Porrada”, “To Cansado” e “Homem Primata” são apenas algumas que traziam à tona toda essa reflexão. Você se via “louco de tanto pensar”, comendo e dormindo, almoçando, jantando e vivendo junto com sua família todo dia, cansado de tudo e sem fazer nada (Porrada!). E essas músicas faziam todo mundo se olhar no espelho e se sentir levemente responsável pelo estado em que o país se encontrava.
Ao mesmo tempo, as musicas também faziam você se sentir parte de uma massa que pensava, que criticava, que questionava o até então inquestionável, que parava pra refletir e que queria, de fato, mudar. O disco fazia a gente enxergar o nosso pior. E nos provocava a buscar o nosso melhor.
Fora o contexto político e poético, “Cabeça Dinossauro” representava uma inovação inédita em termos de produção. Desde os tempos de Mutantes não se via um disco de rock brasileiro soar tão gringo, tão profissional, e tão moderno. Aqui, os sons vinham em densas camadas, em timbres volumosos, em apurada técnica instrumental (obrigado, Charles Gavin).
Para entender isso, basta pegar os discos da Legião Urbana, do Paralamas, do Ultraje a Rigor e do Barão Vermelho da mesma época. Nenhum deles tinha a mesma impecabilidade na produção. Todos ainda tinham uma crueza muito rudimentar em sua sonoridade. O “Cabeça Dinossauro”, não. Desde os coros vocais até os overdubs de bateria, tudo ali soa como se tivesse sido meticulosamente calculado para não parecer datado depois de duas décadas.
Acho que eles conseguiram.
Hoje, 23 anos depois, “Cabeça Dinossauro” ainda é uma das maiores provas de que o rock brasileiro existiu, e de que os Titãs já tiveram uma época gloriosa de hegemonia e criatividade no cenário musical deste país.
Este post vai pro meu grande amigo Thiago Reimão, que ontem me proporcionou uma sessão inesperada dessa grande banda, e – sem saber – me presenteou com a nostalgia deliciosa de reviver momentos mágicos da minha própria vida, mentalmente.
Valeu, cara. Até o próximo domingo.

Ei, sumido!
Mais uma vez eu devo admitir que não ouvi o álbum em questão. Conheço de Titãs o que todo mundo conhece, o suficiente pra não boiar no show deles ano passado. ainda tenho o plano de me dedicar mais à música nacional.
vê se não some tanto!
beijo!
Obrigada pelo passeio no blog cotta…..ótimo receber visita sua e melhor ainda é encontrar os amigos na blogosfera.
Bjões
Ps.: Adoro kaiser chiefs
Felipe, tudo bem? Sou o administrador do blog SOMBARATINHO. Gostei muito do seu texto. Gostei tanto que tomei a liberdade de postá-lo em meu blog, mas fazendo referência à sua pessoa. Caso não concorde retirarei a matéria. Parabéns pelo texto. Escreve muito bem. Um abraço e força sempre!!!
Márcio Proença