Fiona Apple – “Tidal” (1996)

tidal

Em 1996, Fiona Apple tinha 19 anos de idade. E 50 de maturidade.

Num ano em que suas concorrentes Alanis Morissette, Joan Osbourne e Jewel faziam seus protestos juvenis e conquistavam os adolescentes do planeta com suas revoltas e lamúrias pró-“queremos ser encaradas como adultas”, Fiona ia pelo sentido contrário, afirmando que de vida adulta ela já entendia e muito.

E, mais até do que seu discurso, adulto mesmo era o seu som. Fiona produziu um disco de estréia onde ela simplesmente compunha tudo com base em seu piano melancólico – por vezes jazzístico e erudito – em sua voz grossa, sofrida e incrivelmente afinada, em seu bom gosto de arranjadora e, principalmente, em sua experiência de vida.

“Tidal” nada mais é do que experiência de vida transformada em excelente poesia. Os recados que transbordavam em “Criminal” – single que lhe rendeu um Grammy em 1996 – em “Shadowboxer” e em “Never Is a Promise” eram muito claros, e se materializavam na forma de versos praticamente irretocáveis. Com um poder de síntese e um talento quase Buarquiano para compor versos, Fiona estapeava – mesmo sem querer – qualquer outra que tentasse se vender como menina-problema mais do que ela.

Não que para fazer boa música você precise ser uma pessoa-problema. Mas já que você vai usar suas angústias e sua história de vida como matéria-prima de sua arte, é bom que você saiba realmente como fazer isso. E a Fiona sabe.

Depois do espetacular Tidal, ela fez mais dois discos impecáveis, em 1999 e em 2005, provando que seu talento promissor não era só uma sorte de principiante. Atualmente, está fora dos holofotes e longe da mídia. Os fãs nem sequer sabem se ela está viva ou não, se está em Cancun passando seus dias em iates e fazendo cruzeiros, se está se entregando a novas frustrações para escrever mais uma obra-prima.

Ela podia pelo menos aparecer de vez em quando para aliviar a ansiedade de quem há muitos anos não ouve sequer uma nota nova vinda de seu piano.

Fiona, cadê você?

~ por felipecotta em Dezembro 2, 2008.

8 Respostas to “Fiona Apple – “Tidal” (1996)”

  1. Ahhh o Title… grande disco. Grande não, enorme.

    E é isso né. Que a Fiona seja infeliz, chifruda, acabada, e que venha um disco sensacionalmente incrível pra contar essa história.

  2. Torco muito pela infelicidade dessa mulher. Clarice Lispector do pop, como já disseram. Música e só mais um detalhe. Poesia… em cada verso, cada nota, cada detalhe. Forma pra quem gosta de forma. Conteudo pra quem gosta de conteudo. Nocaute pra quem gosta dos dois. Free Fiona. So be it. I am your crowbar.

  3. Depois desse post, eu me pergunto: Como eu nunca tinha parado para ouvir Fiona antes? rs
    beijo

  4. Fala Cotta!
    Os 3 discos dela são muito bons! O Tidal é bem legal, mas, na minha opinião, o Extraordinary Machine é mais fudido ainda!

  5. Fiona! A-do-ro ela! Você disse tudo: madura, poeta, talentosa. Eu não tenho o ‘Tidal’ todo, mas tenho as músicas que você citou, e as adoro. Shadowboxer está, inclusve, tocando na minha mente agorinha ^^

    Pois digo que a Fiona está mesmo é escondida em casa, viu? Vai entender…

    A capa do CD é linda, meldels!
    Adorei o post, Felipe!

  6. Que a Fiona faz um som de gente grande, e talvez seu trabalho não tenha a dimensão e reconhecimento que merecem, é fato; no entanto, ahco injusto essa comparação com a Alanis. O Jagged Little Pill pode não ser jazzístico ou erudito, mas é um dos maiores álbuns da história do rock.

    Abraços,
    Thiago Reimão

    Com o Santos, Onde e Como Ele Estiver
    http://blogdofalsario.blogspot.com

  7. Pra não dizer que fui apresentada a ela por você (rs), conheci ‘Crinimal’ quando ganhei o cd do Grammy 1996. Paixão instantânea. Eu só corria para esta faixa e para a que se tornaria uma das minhas preferidas dos Stones, ‘Anybody seen my Baby’. Mas, era tudo o que eu sabia dela. Conheci então, um compiladão… com grande parte do Extraordinary Machine, fantástico. Oh Well ainda é um vício absurdo.

    Eu, particularmente, acho que ela está se entregando, à la Janis (certa vez, li que ela n conseguia relacionamentos saudáveis porque ficava improdutiva). Acho que é nesse linha, rs. Mas, devo também concordar com o Thiago Reimão a respeito do Jagged Little Pill.

    Bj

  8. Ouvi de novo hoje, pra variar.
    Já em 2009. E já servindo pra curar a fossa.

    Aí lembrei de uma colocação importante e talvez polêmica.
    - Amy Winehouse não tem poder nem pra limpar as botas da Fiona.

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