
Quatro anos de trabalho meticuloso, de ourives, de lapidação do som dos discos da banda mais importante da história do rock não podiam – mesmo – ter sido em vão. Hoje, ouvi “Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band” remasterizado e posso dizer que foi uma experiência (aca)chapante.
Desde a abertura do celofane do disco até o último minuto de A Day In The Life, toda a experiência é emocionante. Eu nunca tinha comprado um disco dos Beatles na vida (os que eu sempre ouvi já estavam aí quando eu me dei conta de ser gente), e chegar na loja e ver toda a discografia na prateleira de lançamentos é uma sensação, no mínimo, deliciosa.
Do “Please Please Me” ao “Let It Be”, todos estão lá, fechados no plastiquinho, saídos do forno, exibindo-se em meio aos outros CDs novos que de repente ficaram ofuscados no resto da loja. Todos com o selinho estampado “Remasterizado pela primeira vez”, numa mensagem que – mercadologia a parte – mostra o orgulho dos próprios responsáveis por esse projeto de ver seus produtos finalmente nas ruas.
E colocar um trabalho desse nas ruas significa mexer com a cabeça de milhões de fãs ao redor do planeta, significa tocar o que então era intocável, significa mexer numa obra sagrada e defendida a unhas e dentes por puristas de todos os gêneros, significa revirar o baú da história moderna num movimento arriscado de modernizar – e descaracterizar – o atemporal.
Mas os caras não são bobos. E fizeram um trabalho excepcional, de respeito. Respeito ao consumidor e – principalmente – à própria obra em que estavam remexendo.
Diferente do que muitas vezes acontece com outros álbuns que ganham remasterização, os discos dos Beatles não foram “comprimidos” ou simplesmente “aumentados de volume” artificialmente. Não. O que aconteceu aqui foi uma verdadeira restauração – como acontece em obras de arte – para que se recuperasse a total fidelidade do que havia sido gravado originalmente.
Ou seja: agora, quando você escuta um backing vocal, você realmente escuta um backing vocal, com 2, 3 ou 4 vozes nitidamente distintas uma da outra, cristalina, pura, como se os Beatles estivessem no meio da sua sala. Não se ouve mais um “bolo” de vozes. Se você quiser, você consegue distinguir entre a voz do George a do Lennon. Não é preciso mais fazer esforço para ouvir o baixo do Paul. Agora, ele invade a sala, gordo e pulsante, cheio de vida. A bateria do Ringo foi redescoberta: os pratos rasgam a caixa acústica e os tambores ecoam como se tivessem sido gravados hoje.
O play no Sgt Peppers faz sua sala ser invadida com o burburinho das vozes, e poucos segundos depois a guitarra solo entra atacando tudo, na sua cara, estampado no alto-falante. Parece que tiraram um pano da frente das suas caixas. Em “She’s Leaving Home”, o grave dos cellos faz seu cérebro tremer, ao mesmo tempo em que detalhes previamente escondidos da harpa transbordam para o seu ouvido, temperando a canção com um sabor que eu – pelo menos – nunca tinha provado. “A Day In The Life” está um furacão, com seus metais e bilhões de efeitos sonoros.
Tudo está muito bonito. O som está alucinante, mais puro impossível, mais presente impossível – tenha em mente que são gravações de 40 anos atrás! – mais fiel impossível. Onde é pra ter peso tem peso. Onde é pra ter silêncio tem silêncio. Adeus chiados, instrumentos embolados e vozes encobertas. Adeus ao que você conhecia. Prepare-se para redescobrir os discos dos Beatles.
Nem vou me dar ao trabalho de falar das musicas, pois essas você conhece do avesso, de trás para a frente, de ouvidos fechados. E elas são a razão de todo esse engajamento. Foram 4 anos de minúcia em um estúdio para revitalizar e garantir que as musicas que o mundo ouve há mais de 40 anos permaneçam por mais 40. E mais 40. E mais 40.
E, a partir de agora, com um som tão glorioso quanto seu legado.










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